17/07/2015

Cunha deixa base e vai para oposição, mas PMDB não o acompanha

Peemedebista diz que rompimento com Planalto não vai alterar sua postura como presidente da Câmara. Vice-líder do governo defende afastamento dele do cargo e pretende analisar um pedido de impeachment. Para partido, manifestação é pessoal

Após desabafar mágoas com o governo, Eduardo Cunha emocionou-seIgo Estrela/ObritoNews

As fileiras da oposição na Câmara dos Deputados ganharam nesta sexta-feira (17) um poderoso aliado. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), anunciou o seu rompimento pessoal com o governo e que, a partir de agora, defende a saída do PMDB da base aliada à presidente Dilma Rousseff. O motivo que ele alega: uma suposta devassa nas suas contas pela Receita Federal e a articulação do Planalto com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para "constranger o Legislativo".

O pano de fundo para o rompimento pessoal de Cunha foi a divulgação do depoimento do consultor Júlio Camargo ao juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pela Operação Lava-Jato. Em depoimento, o delator disse que Cunha cobrou pessoalmente por uma dívida de US$ 5 milhões em propinas sobre a contratação de um navio sonda da Samsung-Mitsui pela Petrobras. E teria pedido outros US$ 5 milhões por meio de intermediadores.

"As ações do Ministério Público são ações combinadas com o governo para constranger o Legislativo"Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados

Cunha disse que não pode aceitar "que o governo use a máquina" contra um parlamentar. Mas afirmou que não vai mudar a forma de conduzir a pauta da Câmara e que não influenciará na governabilidade. Também negou a possibilidade de deixar o cargo para se defender. "Eu não vou me conduzir na presidência da Casa como num palanque, não é isso que eu disse que vou fazer. O governo tem as suas matérias, que eu pautarei normalmente. Não há nenhum gesto da minha parte que possa dizer que acabou a governabilidade do governo hoje", disse.

"As ações do Ministério Público são ações combinadas com o governo. Por que, por exemplo, na delação do Ricardo Pessoa ele [o MP] não determinou a abertura de inquérito contra o ministro [Aloizio] Mercadante [da Casa Civil] ou contra o ministro Edinho Silva [da Secom]? Ou contra alguns outros ministros? Ele não determinou a abertura de inquérito. Ali houve uma acusação frontal de recebimento de dinheiro de caixa 2. E nem os outros ele pediu abertura de inquérito. A ação do Ministério Público tem sido seletiva", disparou. 

Segundo o parlamentar, se fosse levar ao pé da letra as delações do doleiro Alberto Youssef, era para ter aberto inquérito também contra a presidente Dilma Rousseff. "Essa lama, em que está envolvida a corrupção da Petrobras, cujos tesoureiros do PT estão presos, essa lama eu não vou aceitar", disparou.

Bando de aloprados
Ontem (16), Cunha já havia falado sobre a existência de um "objetivo claro" de constranger o Poder Legislativo durante a atual crise política. Hoje (17), ele voltou à carga, aumentando o tom contra o Planalto. Disse existir um "bando de aloprados" na Presidência da República, mas não quis citar nomes. O único momento em que fez citação foi ao questionar o motivo de o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, não sofrer a abertura de inquérito, mesmo tendo sido citado em delação premiada.

"Essa lama da corrupção da Petrobras, em que tesoureiros do PT estão presos, eu não vou aceitar (...) Toda essa operação é uma orquestração que tem participação efetiva do governo"Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados

A declaração de Cunha é um passo à frente da manifestação do fim da tarde de ontem, quando ele já anunciava enxergar uma articulação do Palácio do Planalto com Janot para "constranger o Legislativo". Na oportunidade, ele citou "fatos estranhos" para chegar a essa conclusão. "Toda essa operação é uma orquestração que tem participação efetiva do governo", acusou. Por isso, disse se considerar rompido com o Palácio do Planalto e que vai defender, no congresso do partido em setembro, a saída definitiva da base.

Para ele, Janot topou "forçar" o delator a mudar seu depoimento para garantir sua reeleição ao posto de procurador-geral da República. A indicação ao cargo é de prerrogativa da Presidência da República e deve ser analisada pelo Senado em votação secreta. 

Sobre Sérgio Moro, Cunha disse que ele "se acha o dono do país" ao tentar suplantar o STF (Supremo Tribunal Federal) e o STJ (Superior Tribunal de Justiça),com a postura de tomar depoimentos relacionados a políticos com prerrogativa de foro.

Cunha disse ter comunicado a decisão ao vice-presidente da República, Michel Temer, que também preside o PMDB. Acrescentou que conversou com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e que o peemedebista tem a mesma posição dele. 

Em nota, o PMDB afirmou que a manifestação de Cunha é a expressão de uma posição pessoal. "A Presidência do PMDB esclarece que toda e qualquer decisão partidária só pode ser tomada após consulta às instâncias decisórias do partido: comissão executiva nacional, conselho político e diretório nacional", diz a nota.

Fonte: Redação.

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